Adriana sabia que se fosse ao aniversário da Julinha, eram grandes as chances de dar de cara com Maurício, seu ex. Para Adriana, pior que ir a uma festa e dar de cara com o ex, só mesmo ir a uma festa, dar de cara com o ex e achar ele ótimo. Desde o rompimento, Adriana vinha investigando minuciosamente a vida de Maurício no Facebook. Ficara indignada ao saber que ele trocara de carro, vinha frequentando a academia cinco vezes por semana e matriculara-se numa escolinha de surf. Surf! Poxa, surf é sacanagem! Muita falta de respeito o ex namorado aparentar um corpo bronzeado e um rosto sem olheiras, ela pensava a cada foto "Com-a-galera" que ele postava (com a galera na praia, com a galera do trabalho, com a galera da academia...) Para Adriana, ex namorado bom é aquele que deforma - engordando ou emagrecendo, tanto faz - e mantém no rosto, pelo menos por quinze dias, uma expressão sem vida, que a gente olha e ri internamente, pensando "Bem feito, seu canalha!"
Faziam quinze dias que Adriana e Maurício haviam terminado o namoro de dois anos. Vivendo na mesma cidade e tendo 73 amigos em comum no Facebook, é claro que cedo ou tarde eles se encontrariam. Ambos sabiam disso.
O problema é que quando a fatídica sexta-feira chegou, Adriana ainda não estava psicologicamente preparada.
Na dúvida, o desprezo!, ela pensou no instante em que viu Maurício surgir entre as mesas do bar, com uma caneca de chopp nas mãos.
- Tudo bem com você? - ele perguntou, após cumprimentar Julinha, a aniversariante, e todas as pessoas da mesa, deixando Adriana por último, propositalmente - Bom te ver! - ele deu um sorriso humilde.
- Aham - Adriana respondeu totalmente desinteressada, desviando o olhar para o grupinho de amigas na outra ponta da mesa.
Até os garçons ficaram sem graça.
No entanto, por experiência de outros carnavais, Maurício recebeu o desprezo com a maior dignidade. Sabia que depois de uma separação é preciso deixar a mulher sair por cima - ou pelo menos, achar que saiu -, especialmente, quando a decisão partiu do homem, como era o caso. O cara que não se mostra abalado com a separação, acaba com todas as chances de levar essa mulher para a cama outra vez, Maurício achava. E achava também que Adriana não era o tipo de ex namorada que se devia apagar o telefone da agenda, afinal sabe-se lá o dia de amanhã...- E aí, o que tem feito de bom? - ele arriscou simpático, já na segunda caneca de chopp.
- Muitas coisas... - Adriana respondeu seca, fazendo brochar o que se esperava ser uma iniciativa de conversa.
Maurício virou a caneca. De uma só vez engoliu a cerveja e o orgulho.
- Ah, fala uma então. - ele insistiu, percebendo estranhamente que o desprezo de Adriana lhe aguçava o mais recôndito desejo.
Aliás, mais que isso, Mauricio percebeu que havia algo de muito atraente e perturbador em Adriana aquela noite. Seria o decote revelando mamilos túrgidos sem um sutiã para detê-los? Seriam as pernas torneadas escapando da minissaia? Ou seriam as duas coisas agora amplificadas pelo poder do álcool?
- Beijo molhado! - Adriana exclamou e Maurício sentiu uma onda de choque e excitação. Foram necessários alguns segundos para ele compreender que a frase pertencia, na verdade, à conversa paralela que Adriana mantinha com as amigas do outro lado da mesa - O nome do esmalte que a Selminha da novela está usando é Beijo molhado! - ela completou e Maurício teve certeza absoluta que uma chicotada teria doído muito menos.
Ser esnobado por uma mulher faz parte da vida, Maurício pensou, mas ser esnobado pela ex-namorada é uma arte! O cara tem que ter muito autocontrole.
- Oi? Você disse alguma coisa? - Adriana perguntou a Maurício, totalmente aérea, após sua enésima tentativa.
Quando o garçom trouxe aquela que poderia ser a quarta, quinta ou sexta rodada de bebidas, a humilhação aliada à visão da ex segurando a taça de vinho com a pontinha dos dedos fez o corpo de Maurício trepidar tal como a plataforma da Central do Brasil, às seis da tarde. Hipnotizado pelas unhas vermelhas que coroavam dedinhos tão delicados, Maurício perdeu a cabeça e a linha. Naquele momento, resolveu que faria qualquer coisa para ter novamente aqueles dez dedinhos arranhando seu corpo.
- Eu estou fazendo aulas de surf! - apelou, já no desespero.
De repente, Adriana virou-se para ele feito um girassol.
- Com a Ana Cláudia Andrade? - pela primeira vez na noite, Adriana o olhou nos olhos.
- Quem?
- Ana Cláudia Andrade. - disparou Adriana entre provocativa e impaciente.
- Quem é essa? - ele pareceu confuso.
- Não sei, ué. Eu li ontem, numa das suas atualizações no Facebook: "voltando da aula de surf com a Ana Cláudia Andrade"
- Ah... a Cacau? - ele nem sabia que a Cacau se chamava Ana Cláudia Andrade, mas o ciúme de Adriana dava uma outra dinâmica à cena. Muito mais favorável! Maurício não quis perder a vantagem. - Ela é só uma amiga...
- A sua amiga "Cacau"... - o sarcasmo escorreu pelos lábios de Adriana - deve ter começado as aulas de surf bem recentemente, não? A julgar pela foto do perfil, achei ela bem gordinha para...
- Dri! - Maurício interrompeu, chamando-a pelo apelido carinhoso. Era um passo arriscado do tipo tudo ou nada, mas àquela altura ele já estava fazendo qualquer negócio.
Adriana não respondeu. Maurício achou um ótimo sinal.
- Dri - ele insistiu na estratégia, agora muito mais confiante.
- Que é? - de desinteressada à rancorosa, a posição de Adriana também revertera-se.
- Passei esses quinze dias esperando uma ligação sua, sabia?
- Ai, Maumau, não vamos complicar as coisas, tá? - ela disse com voz infantil.
Pronto! Era isso que Maurício queria. Só isso! Passara a noite inteira esperando por uma deixa! Agora que Adriana também usara o apelido carinhoso, nada mais podia dar errado. Não tinha como!
- Diz para mim que você não sentiu saudade. - ele pediu, encostando discretamente sua mão na dela.
- Não senti. - ela blefou e ele achou a mentira muito melhor que a sinceridade.
- Pois eu senti todos os dias. - Mauricio disse apaixonado, sem medo de parecer meloso. - Você não pensou em mim, Dri?
- Não.
- Nem um diazinho?
- Nem um
- Jura?
- Não.
- Eu amo você.
E Maurício não mentiu. Realmente a amava. Naquele momento amava Adriana mais que tudo na vida, mais até que o Flamengo! Se ela quisesse, ele faria qualquer loucura, rastejaria pela chão, tatuaria o nome de Adriana na testa, em itálico e negrito! Adriana não fazia a menor ideia, mas naquele momento tinha Maurício na palma da mão. Era amor sincero, de verdade, para valer. Os dois podiam sentir com a intensidade e a certeza que só as noites de sexta-feira permitem sentir.
***
Estranhamente, toda essa certeza dissipou-se seis horas depois, quando Adriana acordou na cama de Maurício. A mesma cama de sempre! Ele ainda dormia, mas de alguma forma foi possível sentir que as coisas não eram mais as mesmas... Estranho, muito estranho porque Adriana sofrera tanto com o fim do namoro, idealizara tantas vezes uma segunda chance com Maurício, no entanto, agora, todo aquele blá-blá-blá romântico soava tão chato, tão requentado!
No início da noite Adriana estivera certa de seu amor por Maurício, mas agora, extravasada a tensão sexual, alguma coisa havia mudado.
- Zzzzzzz - foi o ronco de Maurício que a fez cair na real.
Adriana deu um pulo da cama, pegou o celular e há alguns poucos quilômetros dali, num outro celular chegava a seguinte mensagem:
"Julinhaaaaa, bem que vc falou... o Maurício não tem nada a ver comigo! Me livrei desse carma espiritual, amiga! Qual a boa mais tarde?"